quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

SEM CAPÍTULO ZERO


Ciclo sobre ciclo. É a nossa vida a refazer-se nos dias de mais promessas que garantias; mais juras que conquistas, a arrastar uma confiança meia desaparecida nas névoas dos desentendimentos gerais. Tudo é global, até a descrença num futuro melhor, que não deixa margem satisfatória a cada indivíduo para revelar o desconcerto da era que vivemos. São os medos de virmos a reprovar na aceitação dos outros, em pessoa ou em instituição colectiva, que nos tolhem a liberdade de anunciar o necessário equilíbrio a todos. É, pois, um risco sério, manifestar o desagrado do falhanço do sistema político que incorporou regimes de expressão sôfrega da economia, agora náufraga de interesses tão passageiros quanto ocos os caminhos traçados pelos responsáveis de tal situação. Que espaço, portanto, cabe ao cidadão, senão ter de aceitar uma ordem feita de solavancos incómodos? Entrámos na história das realidades familiares sem direito a qualquer experiência, tendo nascido logo em um dia de um qualquer mês, num qualquer ano-etapa da história mundial, abandonada a experiências mais ou menos consequentes. A nossa narrativa faz-se no imediato e sem direito a prólogo, porque ninguém parece ter tempo para endireitar as veredas que os nossos olhares vislumbram. Somos logo vida, em choro convulso, parte de uma outra vida mais solícita, anos mais tarde, transformada numa avidez obstinada com a posse do material e abraçada em egoísmos hipócritas, condicionados por sistemas de difusão da informação conveniente que vão lentamente afastando das vidas exemplares de pessoas ainda presentes em nosso meio. É preciso olhar em frente, com um renovado estudo sobre os dias que nos trazem vivo o apetite de estar vivo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O JOGO DA VIDA

Os dias com gente viva trazem, amiudadas ocasiões, apelos sérios à participação comum em iniciativas de construção mais empenhada ou divertida, consoante os contextos de profissionalidade ou convívio em que nos movemos. Responder afirmativamente nem sempre se torna numa decisão fácil de assumir, pois que a gestão das nossas disposições e humores é condicionante ao envolvimento agregado. Sabemos que não nos devemos deixar dominar pela circunstância arbitrária dos arranjos momentâneos dos comportamentos, mas devemos estar sempre atentos às necessidades de colaboração, cujo interesse parta dos que connosco se relacionam. Entre ficar ou partir, há que tomar o desafio de sairmos de nós mesmos, para alargar o círculo de relações, ainda que com os receios, mais ou menos fundados, de não ser bem aceite entre pessoas desconhecidas. Só o são até nos dispormos a deixar que o sejam, isto é, entram no nosso terreno de troca no momento em que começamos a apreciar uma qualidade que seja, valendo essa, por ser a primeira comprovada na observação, acima de quantas possam, posteriormente, surgir. É da partilha de experiências que vão emergindo as potencialidades individuais, abonadas da aceitação dos desafios em equipa. Para lá do nosso campo, há uma outra metade por onde importa entrar, na mira de poder ultrapassar uma linha de vitória, não raro de ténue distância da linha da derrota. É, pois, mais que imprescindível, saber escolher a melhor estratégia para deslaçar o aperto em que os fios da vantagem e do rombo parecem, indefinidamente, estar unidos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A MÃO NO SÍTIO CERTO

Enquanto uns dias nos acordam, cinzentos, com as novas mais que rotineiras, postas à mesma hora por vozes pouco animadoras, outros abrem-se em surpresas inusitadas. Seja pelo sucedido na conclusão do dia anterior, seja pela inauguração daquele em que acordamos, somos chamados a despertar para o entendimento do que é novo, por ser raro, e, por conseguinte, mais atreito a causar estupefacção. Temos os ouvidos, primeiro, e o olhar, depois, a recuperar da inércia nocturna, dispostos a encarar as manchetes e os destaques para a reflexão das novidades faladas, escritas e televisionadas, porque os critérios jornalísticos assim o determinam. Com efeito, um caso só merece importância por ser capaz de concitar as atenções de públicos muito vastos (falamos de milhões de cidadãos) e guindado ao prime-time pelas repercussões dele advindas. Um simples caso pode afastar-se da banalidade na medida em que possibilite activar a troca de argumentos muito mais abrangentes que uma mera incompatibilidade entre um sim e um não. Ainda mais acesa pode ser a discussão, se o que está em causa é o acesso de uma equipa a uma competição desportiva de relevo mundial. Dilatado o problema, porquanto passível de interferir em esferas díspares da futebolística, porque assim o alcance mediático parece exigir, nele intervêm figuras de topo do âmbito político a esgrimir argumentos falaciosos e comprometedores das relações que se desejam de lisura. Posta a questão nestes termos, poderemos, com a força de uma comunicação social insidiosa, estar a contribuir para alimentar polémicas nascidas de situações imponderáveis, mas corrigíveis, pondo a nossa mão, outrossim, ao serviço da justeza de procedimentos, uma vez capazes de concertar soluções favoráveis ao entendimento mútuo.

domingo, 8 de novembro de 2009

A MAIOR RIQUEZA

A vida prodigaliza-nos com excelências nem sempre reconhecidas como imprescindíveis à beleza dos nossos dias. Estar à altura de avaliar bem as ofertas vindas sem pedidos é uma grande qualidade, que pode não «nascer» connosco, mas que deve ser educada de forma equilibrada e tendo em vista o benefício comum. De entre muitas valias vistas, uma é a família. Porque nos traz ao mundo; porque nos ensina a crescer; porque nos promove na sociedade. E nem se discutem os métodos em que tais funções decorrem, já que aqui não caberia tal tratado. São sobejamente conhecidas as linhas com que se tecem as relações de muitas famílias, que votam ao esquecimento quem fundou a sua história e que ignoram as origens numa altivez amesquinhada por interesses vizinhos da insensatez. Sabemos, também importa admitir, que muita gente nunca teve boas oportunidades de perceber o que de mais ajustado existe, por apenas conviver com a derrota e o defeito, numa postura amiga da egolatria e conducente ao progressivo isolamento que oprime muito mais em vez de criar. Com quem aprender a olhar o mundo com vistas largas e de esperança, senão com os que, logo muito antes de estarmos entre eles, já tinham um projecto de vida para nos dar. E, mesmo que sem a solidez mais promissora, porquanto sujeitos às contingências das políticas, por exemplo, bem no íntimo já havia uma história por edificar e instituir em conjunto.

sábado, 7 de novembro de 2009

NO DIÁLOGO PARA SER

Dotado de capacidade para tornar comum o que o fascina, perturba e enaltece, o Homem descobre-se progressivamente a si mesmo nas palavras que troca. Não só, mas essencialmente. É um método que, para além de mais espontâneo, é mais directo, acessível e não requer protocolos especiais, senão os relativos às noções de respeito, amabilidade e cortesia. Tece-se uma conversa nestes parâmetros, e quem nos ouve prova a nossa competência – ou a falta dela – para transmitirmos o que temos na disposição de contar. A opinião, quando não é mais uma dúvida, formada no cérebro, nasce quando é expressa e reflecte as vivências de cada um, na comunhão dos valores socialmente instituídos. Dar crédito a quem nos diz isto ou aquilo não significa, a priori, afiançar cabalmente a seriedade das suas palavras. Mais importante é saber ouvir com o discernimento suficiente e com a proficiência habilitada que nos possibilita diferenciar o que está correcto e o que não pode ser acolhido. De outro modo, seremos máquinas de escutar, sem a capacidade de cotar a informação entrada, e aparelhos de reproduzir, na ausência de balanço expressivo. Nem tanto assim nem de outra forma, estamos profundamente convictos, porque não fomos feitos para hospedar matérias sem as assimilar a nosso contento e de forma desgraduada. Se é pela linguagem que se processa o entendimento do mundo, em combinação o jogo e o exemplo, então valorizemos as palavras interpermutadas por quem parte para o seu uso de juízo aberto e de iniciativa translúcida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

DEIXAR PASSAR O PASSADO

Olhar o passado com probidade, quando particularmente mais desafortunado e de pouca monta nos espaços e em certo género de relações, como forma de crer ainda mais no futuro, traz consigo promissores exames e encorajadores sinais na vanguarda das nossas vontades. Sendo, o ser humano, uma espécie de arquivo animado das suas vivências, facilmente consegue inverter o curso temporal natural, recuando e avançando conforme os sentidos volitivos preferentes. E já que as memórias também coabitam em paralelo com as dos seus iguais, não pode tecer a meada da sua história de forma isolada, mas balanceada nas recordações e sonhos de todos. O que fazem certas pessoas, no seu corroer lento de vidas próximas, ao criar indícios de divórcio entre iguais, é promover a incerteza do tempo por andar. De outro modo, o modo de estar de certas pessoas resume-se a edificar castelos de imaginação errónea nas individualidades estranhas, contrariamente a quem se afirma em seriedade e correcção, sustentando a convicção de que devemos partir do crédito em nós mesmos. E sempre. Falar de saudade impossível pode não significar necessariamente acentuar o desprezo por alguém em concreto, mas olhar em frente de maneira infundida, consciente da lucidez para enfrentar novos desafios. Titubear não resolve as incertezas, se as houver, que temos. Pelo contrário, ainda as sublinha, num quadro derrotista que nos afasta da conclusão premiada que queremos dar à nossa vida. É o mesmo que partir para um qualquer concurso, ainda que de circunstância, em desprazer dominador.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

VER E SER

É muito gratificante reconhecer as excelentes qualidades que nos apontam, quando não pomos em dúvida a idoneidade da origem dessas palavras. Mais árduo é ter de admitir que haverá sempre quem nos julgue pela sua maneira de julgar: anotam aspectos menos agradáveis por lhes parecer ser possível assumir-se diferentes. Pouco certo, por eufemismo, avaliar comportamentos alheios pela individualizada leitura que fazemos do que os nossos olhos captam. Quantas ocasiões enganadora, a vista lá nos atraiçoa com aparências nadas em relances crus, suscitando equívocos e desencontros de opiniões. De má tendência, porfiar na revelação de diferentes formas de encarar a maturidade característica de uma certa teimosia de interesses. Perante a certeza dos resultados conquistados por quem teve o mérito de os obter, pode despertar a aproximação das diferenças. Isto equivale a dizer que os desafios vencidos, com maior ou menor determinação, cabem por inteiro a quem manteve viva a crença nas suas possibilidades e segurou esse repto vivo até ao fim da contenda, batalha aberta aos capazes. Portanto, uma pessoa pode não apreciar um qualquer trabalho numa perspectiva graciosa, não raro ilusória. Todavia, há também que saber que, ao sujeitarmos um trabalho à avaliação alheia, temos de esperar qualquer género de comentário, sabendo medir as distâncias entre a qualidade do seu conteúdo e as palavras ditas de cálculo. Por isso é que ninguém pode comandar os raciocínios de quem comenta uma tarefa realizada em troca de uma classificação.