Sentir saudades é querer partilhar a história de vida do outro, num mesmo espaço e tempo. É querer estar em sintonia de afecto, olhando numa mesma direcção e vivendo uma intenção comum de interromper o curso implacável do tempo, que torna as horas de cada um quantas vezes inconciliáveis e impossíveis de situar num encontro. É o desejo de estar mais próximo e actuante, para compreender a essência espiritual daqueles por quem mais sentimos estar ligados de forma sincera, seja por via das origens biológicas, seja pelas razões intimamente associadas ao despertar da importância que determinada pessoa causa em nós e que, por isso, nos faz ver nela quem mais nos completa. Trocam-se recordações, olhares e palavras, na tentativa de reviver situações marcantes para ambos, quando nem sempre se pode responder totalmente aos primeiros chamamentos da outra metade de nós. Nesse sentido, desejar a sua presença, independentemente das falibilidades de agenda, já é reconhecer os valores de amizade (ou mais profundos) que ambas as partes sentem. Pode, ainda, a ausência fortalecer o desejo de presença, e aí podemos afirmar que a saudade pode ter um prazo, porquanto definido em função da disponibilidade manifestada ou simplesmente condicionada pelas circunstâncias do quotidiano. É que nem sempre a vida proporciona a aproximação pretendida, apesar das vontades muitas vezes escondidas bem lá no fundo de cada um. O pior que pode suceder, e julgamos não estar longe de uma certa convicção enraizada nas experiências passadas, é pensar que a consciência de saudade pode significar ausência de sentimento ou desagrado pela recuperação de bons momentos vividos. Bem pelo contrário, assumi-la como parte de uma forma bem portuguesa de estar é ter a consciência de nós próprios como seres que vivem pela existência do outro.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
EM PRESENÇA DA LUZ
Independentemente da severidade da estação com que o frio nos visitou (são os rigores cíclicos a lembrar o cuidado com a necessidade de agasalho), vivemos as festas nas amizades cultivadas ou no calor do ambiente familiar, definindo encontros propiciadores de alegria que marque os dias nem sempre auspiciosos. Qualquer celebração precisa de uma data para facilitar a reunião, mas não basta só por si. Vai muito para além do calendário, porque a ela estão associados os significados exclusivos de que convivem aqueles que partilham os mesmos interesses pelos festejos. O que é o mesmo que explicar a imprescindível necessidade humana de comunicar, em presença de quem nos reconhece como pessoas de bem. O encontro é, portanto, já em si uma celebração facilitadora do contacto ansiado por duas pessoas que querem muito estar juntas. Pelo menos duas pessoas, porque à festa podem ser chamadas mais, desde que haja uma relação de proximidade com os responsáveis pela respectiva organização. Em verdadeira ocasião de partilha, as pessoas combinam hora e espaço propícios à revelação dos sentimentos e esperam pelo momento certo de um toque luminoso capaz de inspirar as palavras e suscitar a doação mútua, em manifestações de afecto aceites de livre vontade. É aí que o céu se abre e a crença cresce, apesar da despedida refeita numa última curva, em direcções opostas, mas com o fito na marcação de novo encontro num dia novo, onde a luz surja logo aos primeiros acenos de presença sensível.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
EM SABEDORIA E PLENITUDE
Uma vida que procure estabilidade, longe do alcance de projectos visíveis propiciadores de bem-estar físico, requer esforço interior e abnegação. Um desafio sem arrogância e isento de egoísmos. É a conquista das nossas realizações, em base de confiança e firmeza, que deve ser o centro das grandes motivações da vida, tarefa sempre incompleta, mas que por ser vista dessa forma, não pode impedir de atingir as realizações em pleno. Procurar, na partilha generosa de afabilidade e benevolência, restaurar as energias de quem connosco convive, representa o princípio de busca dos contentamentos sólidos de que precisamos. Este é o sentido útil da nossa existência, considerando o ser humano em formação constante capaz de robustecer as suas competências de auto-conhecimento. A sabedoria é a construção individual da felicidade, num empenho incessante que não pode depender de condicionalismos externos, estes mais sujeitos a contingências de variada ordem, e a ela cabe a explicação dos trajectos escolhidos rumo à plenitude. Ela é assim uma espécie de idioma verdadeiramente universal, que todos querem dominar, mas não conseguem. Uma espécie de ponto de contacto entre o que está perto e o que está distante. E estar próximo já pode ser um degrau na conquista dessa plenitude que os que vivem pelos princípios tanto anseiam. Uma vez captados e aprendidos, permanecem na nossa posse e regulam os nossos comportamentos, na demanda da perfeição. Essa procura é um meio para roçar a plenitude, que pode existir num coração palpitante, que revela ao outro a razão de viver e escolhe o momento certo para o dizer. E porque a vida deve propiciar muitos momentos do género, não há que recear repetir as melhores palavras para partilhar o que há de mais justo no mundo.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
CONSTRUIR A FELICIDADE

Lutar pela felicidade, acreditando na sua conquista, mesmo a partir dos sinais quotidianos mais elementares, é razão suficiente para apostarmos a sério em nós, como pessoas capazes de edificar relações duradouras. Do fundo da essência humana, é à verdade de querer ser feliz que devemos os dias mais singulares que temos. Por isso inquietamos as rotinas e desafiamos quem sabiamente consegue perturbar o que somos, sem receios de perda. Uma certeza norteia quem acredita nela como alcance do domínio da memória afortunada: a felicidade não pode existir enquanto estivermos longe dos sentidos de partilha. E, enraizada nesse valor, ganha quem mais der, porque os créditos não dependem de finalidades numéricas, mas de intuitos de crescimento da individualidade afectiva. Parecendo raciocínio paradoxal, o encontro semântico dos termos ganhar e perder só é possível quando se participa em total doação. Estar no caminho da felicidade é compreender os horizontes do diálogo aberto e livre dos incómodos e complexos pensamentos que nos vão desviando do que é realmente fundamental. Aquilo que podemos qualificar como um jogo, em que o resultado final directo pouco ou nada conta, tem por base a conformidade dos actos de caminhar em direcção ao outro, sempre que nele vemos a projecção do temos de melhor bem dentro de nós. Estar próximo da felicidade é, portanto, aceitar as incitações sadias e fazer delas compromissos merecidos de júbilo interior, porque o contentamento nascido das palavras e gestos tem de marcar definitivamente os dias que nos restam.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
A INCLINAÇÃO DO REGRESSO
Não parecemos humanos, quando, na fuga aos encontros necessários, falham as palavras para definir estados de alma para lá dos anos volvidos. Depois, reconhecidas as imagens dos espaços outrora percorridos, por activação da reminiscência, ganhamos vida própria, aparentemente consolidada em rendimentos capazes de sustentar os conceitos de bem-estar que procuramos. Porém, convencidos da perenidade dessas sensações, adormecemos nas satisfações imediatas e desviamos a atenção do que devia ser efectivamente duradouro. De tantas oportunidades para a criação de laços de sempre, tememos a verdade da relação e olhamos para o lado, como se a vida estivesse sempre pronta a entregar-nos o que tem de melhor. E desconhecendo o futuro, pesamos a nossa história, em maior ou menor dose de intuição, e impomos a racionalidade a falar por nós, por ser capaz de descrever melhor as etapas do crescimento lento. Quantas vezes ela nos enganou, principalmente por reconhecermos uma inevitabilidade vizinha da tradição e educada pelas gerações anteriores, ou por vermos num determinado espaço a ausência das nossas raízes, fundadas distantes, o que também pode condicionar seriamente a afoiteza de uma pergunta feita de modo meio atrevido e mesmo depois de um sim despertador de alegrias infindas.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
PELO CONTACTO VIVO
Vivemos para construir e corroer o anteriormente edificado. E tudo num constante ciclo de elevação e derrube, em substituição de sinais de realização humana que se vão sobrepondo no decurso dos dias. Como eles, a dar lugar aos meses e anos, porque tudo existe pelo sentido da transformação. Só mesmo a memória, para recuperar os passos dados, os tempos gastos e as imagens esboçadas e prontas. Ela é a mestra capaz de explicar todas as transferências de relações delimitadas pelas tendências de situação e pelas necessidades, mais ou menos espontâneas, de nos revelarmos seres em construção permanente, entre o que passou e o devir, num curto intervalo de hipóteses, perguntas e novas dúvidas, porque as respostas só se conquistam pelas experiências. Ir ao encontro delas, na simplicidade da linguagem e lhaneza de gestos, é mais de meio caminho para nos aproximarmos dos outros que sentem as mesmas urgências de contacto. E porque é urgente comunicar com verdade, para lá das barreiras inventadas da proporção tecnológica desfasada, que arreda os homens da abertura de espírito, aceitamos um convite, perto ou longe, pouco importa, para tornar mais únicos os nossos dias de passagem entre vidas. Vale realmente a pena, quando assumimos o sim como contributo de realização mútua, porque tanto nos enriquecemos com a troca de impressões dos que nos ouvem, como estamos prontos a engrandecer quem reclama a nossa comparência. Afinal, de que servimos, se não estivermos prontos para servir? É assim que lançamos investimentos e aceitamos suores capazes de levantar projectos, na concretização daquilo que julgamos ser capaz de amplificar a nossa relação com os outros. Por haver valores, história e sentido de cooperação.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
PARA LÁ DE NÓS
Parece não existir, comprovadamente, vida sensível em planetas para lá da Terra, como a concebemos, em corpo e razão. O que vai sendo certo, até que haja confirmação epistémica contrária, é a convicção da existência da completude da realização ontológica neste planeta habitado, em estreita relação com o espaço dominado pelos seres humanos, que existem para fundar novos modelos de comportamento e instituir sentidos de organização progressivamente elaborados, ainda que nem sempre com a maior eficácia. É a pensar desta forma que se consomem horas sobre horas, em cimeiras e colóquios, junto de reputadas figuras que promovem constantemente uma imagem de protecção das causas que defendem. E os homens nunca pensaram viver sem companhia cósmica, depois de terem andado à procura de amostras e sinais de géneros vivos, mais ou menos evoluídos. Mas não. Foi pela avidez de outras realidades, que não as suas, que muitos homens inteligentes investiram quase todos os meridianos e distâncias para ir ao encontro de desconhecidos sítios antes escolhidos. Ou talvez não. Mas só de longe, que as máquinas que se fazem não conseguem chegar a todo o lado: é a temperatura, a pressão, os agentes ou corpos estranhos, mais a autonomia, que o que se pensa antes da partida traz surpresas durante a viagem. Muito azul, muitos sonhos e aventuras, para mostrar que o ser humano era capaz de acreditar em vida renovada, muito, mas mesmo muito para lá de si mesmo. Mas continua sozinho, sem amigos estranhos ou visitantes de circunstância. Que desperdício…
Subscrever:
Mensagens (Atom)